Carnaval de Belo Horizonte: uma festa que nasceu junto com a cidade – e antes dela

Belo Horizonte ainda estava sendo construída quando o Carnaval já dava sinais de que faria parte do seu DNA

A relação da cidade com a folia começa antes da inauguração oficial e ajuda a explicar por que o Carnaval de BH se tornou um dos mais vibrantes do Brasil.

Existe um imaginário popular que associa Minas Gerais à discrição. Mas a história da capital mineira conta outra versão: desde o início, houve tambor, improviso, ocupação das ruas e vontade coletiva de celebrar.

Foto: Leo Lara/Divulgação

Quando a cidade ainda era canteiro de obras

Em janeiro de 1897, meses antes da inauguração oficial da nova capital, operários responsáveis pela construção de Belo Horizonte organizaram um desfile informal pelas ruas que surgiam. Carros e carroças foram decorados, e o trajeto ligou a Praça da Liberdade à Avenida Afonso Pena.

Sem regras, sem estrutura e sem patrocínio, aquele cortejo marcou o primeiro registro de Carnaval na cidade. O gesto espontâneo deu origem a um modelo de festa popular que atravessaria gerações e ajudaria a moldar o espírito carnavalesco belo-horizontino.

Blocos caricatos e o carnaval dos bairros

Nos primeiros anos do século XX, o Carnaval de Belo Horizonte se espalhou pelos bairros e ganhou identidade própria. Os blocos caricatos surgiram como expressão desse humor irreverente e crítico – papel que seguem exercendo até hoje.

A região da Lagoinha se consolidou como um dos principais polos da folia. Em 1947, dali nasceu o Leão da Lagoinha, o primeiro bloco de rua da capital, que permanece ativo. Pouco depois, moradores da Pedreira Prado Lopes formaram a Agremiação Pedreira Unida, responsável pelo primeiro desfile de escola de samba da cidade.

O Carnaval encontra a multidão

A virada de escala acontece a partir da década de 1970. Em 1975, Belo Horizonte passa a vivenciar o Carnaval como evento de massa. O símbolo desse momento é a Banda Mole, que transforma a Avenida Afonso Pena em um grande palco a céu aberto, reunindo foliões de diferentes estilos, idades e expressões.

A partir dos anos 1980, os desfiles de escolas de samba e blocos caricatos entram oficialmente no calendário municipal. Durante o Carnaval, a Afonso Pena deixa de ser apenas uma via de trânsito e assume o papel de passarela cultural da cidade.

A Corte Momesca e o ritual da chave

Outro elemento que ajuda a contar essa história é a Corte Momesca. Todos os anos, rei, rainha e princesa são escolhidos em concurso organizado pela Belotur e recebem simbolicamente a chave da cidade. O gesto marca o início oficial da folia e reforça o caráter lúdico e participativo do Carnaval de Belo Horizonte.

Foto: Leo Lara/Divulgação

A retomada do carnaval de rua

Nos últimos anos, a festa passou por um processo intenso de expansão, impulsionado por movimentos populares e pela reocupação dos espaços públicos. O surgimento de novos blocos, festas independentes e eventos paralelos ampliou o alcance do Carnaval e reforçou sua dimensão democrática.

Em 2018, a cidade recebeu cerca de 3,8 milhões de foliões, com mais de 400 blocos de rua, palcos oficiais espalhados pelas regionais, desfiles tradicionais e dezenas de eventos alternativos.

Em 2019, já sob o lema “É de todo mundo”, o Carnaval alcançou 4,3 milhões de participantes, distribuídos ao longo de 23 dias de programação. Foram 410 blocos, 447 cortejos, palcos oficiais, além dos desfiles de escolas de samba e blocos caricatos, consolidando Belo Horizonte como referência nacional em Carnaval urbano.

De lá pra cá, mesmo que uma pandemia tenha paralisado as coisas por um tempo, o Carnaval de Belo Horizonte só cresce. Para se ter ideia, o Carnaval de 2025 na capital mineira registrou recorde de 6,05 milhões de foliões, um crescimento de 10% sobre 2024. A estimativa para 2026 é superar essa marca, consolidando a cidade como um dos principais destinos turísticos do país.

Estrutura que sustenta a festa

O crescimento da festa veio acompanhado de investimentos e planejamento. O Carnaval passou a contar com patrocínio estruturado, que somou R$ 27,16 milhões em dois anos, incluindo recursos diretos e serviços. Isso permitiu ampliar a operação sem sobrecarregar o orçamento público.

A realização do evento envolve cerca de 40 órgãos, entre instituições municipais, estaduais, federais e parceiros privados, responsáveis por garantir segurança, mobilidade, limpeza urbana, atendimento em saúde e infraestrutura.

Um Carnaval que segue em movimento

O Carnaval de Belo Horizonte não é um produto acabado. Ele se reinventa a cada ano, em diálogo com a cidade e com quem ocupa as ruas. Popular desde a origem, coletivo por vocação, o carnaval belo-horizontino mantém viva a ideia de que a festa é construída a muitas mãos — e pertence a todos.